Professora Édima Mattos morre aos 83 anos e deixa legado à educação
12/06/2026 12:37:22
Referência na luta pela valorização da população negra e no enfrentamento ao racismo, educadora dedicou mais de seis décadas ao ensino, à pesquisa e à inclusão social
Foto: Marketing Unoeste
A professora doutora Édima de Souza Mattos morreu na madrugada desta quinta-feira (11), aos 83 anos, na cidade de Presidente Prudente, em decorrência de problemas cardíacos. O velório ocorre na Casa de Velório Athia. O sepultamento será realizado no Cemitério Municipal São João Batista, às 13h40.
Reconhecida pela atuação em defesa da população negra e pelo combate ao racismo, a professora Édima construiu uma trajetória marcada pela educação, pesquisa e inclusão social. Aposentada da rede estadual de ensino, Édima atuou por mais de 35 anos na Universidade do Oeste Paulista (Unoeste).
Também coordenou pesquisas na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista e desenvolveu projetos voltados à inclusão social e ao atendimento de populações vulneráveis.
Trajetória de vida
Em 8 de setembro de 1942, nasceu em Arapiranga, no interior da Bahia, Édima de Souza Mattos. Neste 11 de junho de 2026, foi embora antes do combinado e em paz: dormindo. Até seu último dia de vida estava na ativa, liderando atividades envolvendo a Unoeste e o Ministério da Saúde. Foram mais de 60 anos dedicados ao ensino, dos 16 aos 83.
O legado que deixou é incomensurável e não se restringe à educação em todos os níveis. Também contempla a luta contra a discriminação racial, com ações e posicionamentos firmes, sem vitimização. Deu o exemplo de que o negro pode chegar onde ele quiser, com doutorado na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP).
No segmento da educação surgiu seu engajamento na militância contra a discriminação, nos anos 1990 em Presidente Prudente. Visitou escolas para estimular os afrodescendentes a não desistirem dos estudos, num período em que o índice de evasão chegou a 68%.
Há quatro anos atrás, em junho de 2022, esteve entre 14 mulheres homenageadas com o Prêmio Ruth de Souza, Prêmio da Secretaria da Justiça e Cidadania, através do Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra do Estado de São Paulo e com o apoio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do governo de São Paulo.
Parceria consolidada
O Núcleo Avaliação de Tecnologia em Saúde (Nats) da Faculdade de Medicina de Presidente Prudente (Famepp/Unoeste) conquistou novo espaço no processo de incorporação de novas tecnologias aos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS).
Em março deste ano, esteve em Brasília no evento do Instituto de Desenvolvimento Nacional da Aliança pela Saúde (iDNASaúde) que marcou mais uma conquista do Nats da Famepp/Unoeste.
Foi estabelecido novo acordo para emissão de Pareceres Técnico-Científicos (PTC) junto ao SUS, através de avaliação de dossiês técnico-científicos para decidir se uma tecnologia (medicamento, dispositivo, procedimento, vacina, exame, etc.) deve ser incorporada, alterada ou excluída do rol de serviços e do SUS.
A professora Édima Mattos teve atuação preponderante e decisiva para a Unoeste assinar a carta-convite junto ao Ministério da Saúde e a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), que é o escritório regional para as Américas da Organização Mundial de Saúde (OMS). Outro esforço estava centrado em estudos sobre anemia falciforme.
Doença negligenciada, prevalente em negros e também hereditária (passa dos pais para os filhos); caracterizada pela alteração dos glóbulos vermelhos do sangue, causando anemia. Seu sonho era ver a implantação do Ambulatório de Anemia Falciforme, no Hospital Regional (HR) Doutor Domingos Leonardo Cerávolo.
Inclusão social
Outra coordenação em pesquisa de relevância na área de saúde esteve voltada às mulheres privadas de liberdade na Penitenciária Fermina de Tupi Paulista, sobre Determinantes Sociais e Saúde (DSS) em relação à saúde mental e sífilis, com recomendações de protocolos à Secretaria e Administração Penitenciária (SAP).
Na área de extensão desenvolveu projetos voltados à ação cidadã de resgate do ser humano e projetos voltados à saúde de vulneráveis. Um dos projetos é sobre informática e cidadania, em locais de acolhimento, para promover sinergia de inclusão social; premiado pelo Encontro Nacional de Ensino, Pesquisa e Extensão (Enepe 2017).
Interior da Bahia
O nascimento de Édima em Arapiranga, foi na época de exploração de ouro na cidade a 400 km de Salvador. Seu pai era o minerador João Francisco de Souza e sua mãe a dona de casa Adozinha Amélia de Oliveira Souza. Édima foi a primogênita de três filhos, sendo seus dois irmãos já falecidos.
Seus pais trocaram de interior: o baiano pelo paulista, atraídos pelo trabalho em lavouras de algodão. A menina tinha dois anos quando sua família se mudou para Ribeirão dos Índios e depois de três anos foi para Presidente Bernardes, onde estudou até o terceiro ano primário.
Quando tinha 10 anos, o destino foi Prudente. Os estudos continuaram na Escola Estadual Professor Adolpho Arruda Mello e no Instituto Educação (IE) Fernando Costa, onde fez o normal. Ao mesmo tempo estudava no Centro de Cultural Brasil-Estados Unidos.
Aos 16 anos lecionava inglês na Escola de Comércio Joaquim Murtinho. Sua primeira formação em nível superior foi na Faculdade de Letras, em Adamantina. Depois, fez Pedagogia na Faculdade de Artes Ciências, Letras e Educação (Faclepp/Unoeste). Antes do mestrado e do doutorado fez várias especializações.
Em 1970, se casou com o contador bancário Eli Dolce Justo de Mattos. Tiveram três filhos e todos ingressaram no ensino superior aos 17 anos. Eduardo é engenheiro químico, casado com Lency, Elizangela é engenheira de alimentos; e Elaine é tabeliã. São vários netos.
Momentos de superação
Mesmo depois de seus três filhos adultos e formados, já sem idade para parir, Édima contava ter passado pela dor do parto mais duas vezes. A primeira, quando fez a defesa pública de sua tese no doutorado em Letras, em 2011, na Universidade Estadual Paulista Júlio Mesquita Filho (Unesp), no campus de Assis.
Posteriormente, ao ingressar no pós-doutorado em uma das mais importantes instituições de ensino superior do país: a USP. Ostentar o título de doutor tem o valor social de atingir o mais alto degrau na formação acadêmica. Mas, para o negro e sua descendência esse é um patamar ainda mais elevado.
O percurso é mais difícil para o negro, por razões históricas, culturais e socioeconômicas. Embora a maior parte da população brasileira seja afrodescendente (55,8%); apenas 16% dos 400 mil professores de universidades são dessa etnia. A professora doutora Édima de Souza Mattos fez parte desse grupo minoritário.
Mas esse menos é mais, por se tratar de alguém que tem lutado pela valorização do negro, com destacada militância no cenário estadual desde 1988, ano do centenário da abolição da escravidão no Brasil. Uma luta de quem acreditava na construção de um mundo melhor, cuja atuação esteve centrada na educação.
Ativa na docência
Aposentada na rede estadual de ensino, se manteve ativa na rede particular, com mais de 35 anos de Unoeste. Além da Famepp/Unoeste, antes passou pela Faclepp, Faculdade de Informática de Presidente Prudente (Fipp) e Faculdade de Comunicação Social de Presidente Prudente (Facopp) que virou Escola de Comunicação e Estratégias Digitais.
Com atuação no ensino superior, buscou aprimoramento profissional e obtenção de titulações. Quando fez mestrado, deixava Assis às 17h30 para entrar na Unoeste às 19h. No doutorado, a luta não foi diferente. Muitas vezes, entre estudar e se alimentar, ficava com a primeira opção, não exatamente por escolha, mas por necessidade.
Ao defender a tese sobre a literatura e jornalismo de Eça de Queirós e se tornar doutora, Édima Mattos recebeu convite para ministrar oficina em Portugal, no “Colóquio Internacional de Thormes/Eça e o romance oitocentista: transformações cinematográficas e televisivas”, em junho de 2016. (Com informções da Assessoria de Imprensa da Unoeste/Professor e meste Homero Ferreira)